Edição 245 de abril de 2021

A VOLTA ÀS AULAS DA MORTE

Muito se lê, ouve e fala sobre a volta às aulas e seus benefícios psicológicos, sócio econômicos e emocionais para os alunos, também para os pais. Contudo, ninguém está falando sobre os potenciais agravamentos dos riscos que a comunidade escolar como um todo vai estar exposta. São muitos os riscos mascarados sob a falácia de que temos que pensar no aluno. Estamos pensando nas crianças quando a proposta é que ela fique na escola 3 horas corridas, sem intervalo? Estamos promovendo que aprendizagem emocional, quando a proposta é que elas permaneçam sentadas de máscara e sem interação com os colegas e professores, ainda que estejam todos na mesma sala? Qual seria o aprendizado para eles, caso tenham tosse ou gripe e sejam mandadas de volta pra casa antes de entrar no portão? Que abordagem pedagógica estaremos usando quando propomos que crianças não brinquem e não compartilhem nenhum material?
Essas perguntas podem ser bobas, mas quem está diariamente na escola sabe que a construção do ser social se dá no compartilhamento de abraços, materiais, atividades coletivas e afetivas. Estamos há um ano sem abraços para a segurança de todos. Será que levar crianças para um local onde estarão acompanhadas de seus amigos e colegas, mas privadas de se manifestar socialmente é bom para seu desenvolvimento psicológico? E o que queremos ensinar sobre preocupação e cuidado quando vamos promover a aglomeração de crianças que ainda nem tem vacina para se protegerem? Isso é se importar com as crianças? Lançar suas vidas contando com a sorte?
Se temos crianças com fome, que sejam ofertados alimentos para elas. Se tem famílias que não podem cuidar de seus filhos por causa do trabalho, melhorem as leis trabalhistas, aumentem o salário mínimo. Reduzam impostos e baixem os preços da cesta básica.
A escola não dá conta disso. A função da escola não é reparar crianças para os pais trabalharem e nem alimentar crianças vulneráveis. A escola também não faz tratamento psicológico para curar traumas de crianças que sofrem abusos em casa. São outras esferas da gestão pública que deveriam estar cuidando disso.


Estamos vivenciando um tempo sem precedentes, que mostram que essas tentativas desesperadas de voltar a normalidade, à força e sem agilizar a vacinação de toda a população, resulta na morte precoce e inconcebível de muitas pessoas. No mundo inteiro isso aconteceu, porque estamos pagando pra ver, deliberadamente?
Qual é a verdade atrás dessa ação? Jogar a comunidade escolar para dentro de escolas precárias e sem estrutura que garanta o mínimo de segurança é crime contra humanidade. Com COEs formados por professores e funcionários que não tem a formação técnica necessária para viabilizar um ambiente em condições sanitárias mínimas para uma pandemia. Porque é tão difícil de ver isso? Ou isso é sabido e ignorado de propósito? Não há prevenção contra esse vírus, nem mesmo depois da vacina poderemos relaxar nos cuidados!
Esse genocídio calculado diz que nossas vidas são descartáveis e que podem ser substituídas. Diz que podemos morrer e que o governador e prefeitos vão correr o risco de nos matar sem nenhum constrangimento. Assassinos. Genocidas. Não me formei professora para morrer na sala de aula para que abastados continuem explorando os pais dos alunos que ensino.


Edição 244 de março de 2021

É NO EMBALO DA PRAIA QUE EU VOU...

Muitos anos de parceria, debates, produções, discordâncias, apoio mútuo... quase 50 anos de vida, uma vida inteira dedicada a arte e a música. Muitas canções embalaram nossas vivências. E nesse embalo de marés boas e ruins, a pior delas levou o Maresia. E ele foi, sem volta. Inacreditável. Estúpido. Violento. Uma ressaca bravia arrastou artistas de muitos cantos desse litoral e do nosso estado para uma tristeza profunda.
O repuxo só não levou as preocupações íntimas e reincidentes que perduram em toda a vida dos artistas: como viver de arte num mundo que não valoriza e não respeita os artistas como trabalhadores. Poucos entendem como é dolorido ver um irmão de arte perder a vida em circunstâncias tão distantes do fazer artístico. Acredito que só artistas compreendem isso, de verdade.
Artista quer viver de arte, da sua arte. Quer cantar, dançar, escrever, tocar. Quer ser valorizado e pago por seu trabalho de tornar a vida menos cinza.
Porque é isso que um artista faz, torna a vida colorida, e mais do que nunca estamos vendo e vivendo isso. Estamos consumindo arte para suportar a dor da pandemia, a solidão do isolamento, para dar leveza á dureza da vida.
Ainda assim, não enxergamos o artista a frente desse nosso conforto.

Hoje, é a vida da arte que está dolorida, acinzentada, mergulhada mais uma vez no pesar de perder um artista. Sabemos que a arte curandeira, vai tingir de vida nossas vidas de novo, a arte é eterna. Mas a perda será também, eternamente, irreparável.
Salve Maresia, salve poeta. Aqui, estamos presentes.
No embalo da praia seguimos cantando tua arte e tuas sabenças, saudosos. Certos de que cada vez que as flores amarelas surgirem nas dunas, a maresia e o vento mandadeiro vão nos mostrar que tua arte permanece viva... Se foi o cantador de histórias de amor.
No embalo da praia, ele foi cantando e batendo tambor...