EDIÇÃO 248 / AGOSTO / 2021    

FOGO AMIGO

A esquina das ruas: João Neves com a Getúlio Vargas, já foi o centro comercial aqui da região de Cidreira, nos tempos em que ainda se vendiam guaraná fechada com rolha de madeira e as últimas casas aqui da região central ficavam na altura da antiga Avenida do Arroio. Na referida esquina havia um posto de combustível e o Armazém Natal. Neles o viajante, veranista ou morador, podia comprar desde utilidades domésticas e alimentos até motor de avião além de consertar pneus. Na Getúlio ao lado da atual Farmácia Municipal há um prédio onde os Irmãos Bertussi, músicos reconhecidos, fizeram dele um hotel que posteriormente ficou conhecido como Apart Hotel Comodoro de propriedade do meu amigo João Bastos. Seu João então com o intuito de agitar o período de baixa temporada aqui em Cidreira, pensou e criou um anexo ao hotel, ao qual deu o nome de Boate Comodoro. Nos embalos dos sábados e fins de semana, sempre as noites cidreirenses por aqueles anos foram agitadas nas proximidades das ruas João Neves e Getúlio Vargas. Nesse embalo o meu amigo e advogado Iossel Volquind, o judeu mais árabe que eu conheci, fez numas das dependências no térreo do Apart Hotel Comodoro um restaurante que servia requintados pratos com nomes desconhecidos para muitos dos frequentadores. O garçom oficial desses estabelecimentos era outro amigo de todos nós o Sinval. Além da simpatia peculiar, era amigo para todos as horas. Trabalhou nos mais renomados bares e restaurantes da praia como o Bar João, Porto Belo e em muitos eventos oficiais.
Era um desses invernos de lascar, mal anoitecia e uma bruma tomava conta da região, fazendo com que qualquer vivente não tivesse a suprema capacidade em enxergar uns dez metros adiante do próprio nariz. Isso não era impedimento para o Iossel organizar algum jantar no meio da semana para convidados especiais. Acontece que sempre apareciam para o jantar pessoas que surgiam sabe-se lá de onde ou que estavam de passagem aqui pela praia. Esses jantares eram acontecimentos únicos e lembro de um que foi assunto durante muito tempo, e nós sempre que dele lembramos falamos que foi o jantar do fogo amigo. Vamos aos fatos. Tudo foi preparado com a devida antecedência já que o prato principal era uma Paella Valenciana. Assim, camarões gigantescos foram trazidos de Laguna, e outros ingredientes com páprica e verduras especiais foram trazidas da Capital. Além dos convidados uma surpresa. Quatro viajantes chegaram no restaurante e não demonstraram nenhum sinal de simpatia pelo local ou com as demais pessoas presentes. Eles foram depois identificados como sendo o Cabeça, o Juca, o Coronel e a Lili. Não eram moradores aqui da região e ninguém soube de onde vieram nem para onde foram depois dessa janta. O fogo amigo foi aceso quando o Cabeça tentou calçar o Sinval quando o mesmo passava junto a mesa dos viajantes. O Sinval tinha como característica no seu trabalho carregar imensas bandejas carregadas de pratos, copos, talheres, garrafas, guardanapos e tudo mais que era preciso para atender as muitas mesas do restaurante.

 
O Coronel e demais convidados reprovaram a brincadeira do Cabeça, mas a Lili riu muito do incidente enquanto Juca parecia indiferente. O Sinval acostumado a tratar com os mais diferentes tipos de pessoas em princípio não deu muita atenção ao caso, porém o Cabeça não se conteve. O Sinval passava novamente pela mesa dos visitantes e dessa vez carregando duas bandejas carregadas como sempre. O Cabeça desta vez, nitidamente mediu a aproximação do Sinval e num movimento rápido saiu de sua cadeira e deu com o ombro no peito do franzino Sinval que foi jogado para traz como estivesse tentando dar um duplo mortal carpado de costas, mas para o espanto de todos, o Sinval permaneceu de pé e com suas bandejas equilibradas. Dessa vez o Sinval subiu nas tamancas e partiu para cima do Cabeça que contava com a parceria dos amigos caso houvesse um arranca rabo. O Sinval chegou até o Cabeça que estava retornando para a mesa e ao se aproximar bateu numa garrafa que caiu derramando o líquido na roupa da Lili que aí não gostou do incidente. O Cabeça pegou a garrafa e tentou acertar o Sinval no rosto. Sinval como um raio fez um movimento com a sua cabeça livrando-se da garrafada que foi atingir a nuca do indiferente Juca que com o impacto mergulhou a cabeça na fervente travessa de Paella. Em desespero O Juca cego por restos de camarão, cebolas e pimentões apimentados encontrou uma ponta da toalha da mesa e levou ao rosto para limpar os olhos ao mesmo tempo que escorregava no líquido derramado da garrafa e caía sobre a Lili trazendo consigo tudo que estava sobre a mesa como o que sobrou da Paella mais as saladas, garrafas, copos e taças além dos talheres e pratos de diversos tamanhos que ficaram esparramados sobre os dois. Coronel em desespero pulou para cima do mau caráter do Cabeça segurando-o num apertado e sufocante mata-leão fazendo com que o Cabeça perdesse totalmente os sentidos. Coronel que parecia não gostar de confusão, não suportou o peso do Cabeça e por razões desconhecidas acabou tento um mal súbito que o fez se esborrachar abraçado ao Cabeça sobre o que sobrou do Juca e da Lili, da mesa e das cadeiras. Foi ou não foi só fogo amigo que acabou com a petulância dos viajantes. Sou Wilson M Freitas um marisqueiro raiz que pretende estar com todos demais marisqueiros na próxima edição de O Marisco. Até lá.


EDIÇÃO 247 JULHO / 2021

O CHURRASCO TURBULENTO

A Av. do Arroio ainda não era pavimentada e as últimas casas ficavam próximas onde hoje se localiza o Ponto de Cultura Flor de Areia. Na quadra entre a João Neves e a Osório tinha alguns moradores fixos, como a Lili e seus filhos: João Crã e Assis. Havia também o pequeno armazém do seu Hélio e da Dona Beatriz, mais conhecida por Dona Beata. A Lili quanto chegava o verão, gostava muito de visitar as amigas veranistas. O Assis fazia a pintura das casas aqui da região, que tinham como característica serem todas de madeira e apoiadas sobre estacas. Não haviam cercas que separassem as casas e a única referência entre uma propriedade e a outra era uma estaca de madeira colocada na parte da frente dos terrenos. Todos respeitavam o espaço dos vizinhos e por vezes até à estaca que separava os terrenos sumia no piso de areia fazendo com que o pessoal da Agro Territorial Cidreira viesse medir e recolocar nova estaca para separar os quintais. Entre os veranistas que tinham casa entre a Osório e João Neves, na Av. do Arroio, lembro do Didinho Maninho, irmão de Dona Loti, que era casada com o Tata ou Luiz Quintal da Fontoura, que era irmão do Capitão Lauro, que era casado com Dona Maria e que eram pais do Leonardo, exímio violeiro, que era chamado por todos que tinham casa na praia para fazer serenatas. A casa do Tata tinha o nome de “Cabana do Pai Tomaz”. Ao lado fica até hoje a vila Mariclea, do Capitão Menezes e da Dona Ury no caso os meus pais. Essa velha guarda deixou uma saudade imensa. Vivos nos dias de hoje estão eu, minhas irmãs, e o Assis. Agora se você quer saber sobre o turbulento churrasco, vou lhes contar. Meu pai mandou construir nos fundos de nossa casa uma área fechada em alvenaria com um pequeno banheiro, tanque e uma churrasqueira. Da churrasqueira, pela porta que saía para o nosso pátio, eu podia ver a parte de trás da Cabana do Pai Tomaz, onde havia um pequeno espaço que separava a cabana dos cômoros que naquela época, indicavam o fim da zona urbana. Nesse cenário, num verão, eu estava fazendo um churrasco quando os nossos vizinhos chegaram para a temporada e trouxeram uma churrasqueira daquelas feitas de tonel que foi prontamente instalada no espaço entre a casa dos vizinhos e os cômoros. Enquanto ajeitavam as bagagens, o Tata iniciou os trabalhos de preparação de um churrasco, já que todos estavam com fome e cansados da viagem. .

 
Eu assando nosso churrasco observava a movimentação na casa ao lado. Passado algum tempo nosso churrasco estava pronto, enquanto o da churrasqueira do Tata mal começava dourar. Quando fui pegar nosso último espeto notei que ninguém estava cuidando do churrasco dos vizinhos. Como já havia dito antes, não havia cercas entre nossas casas e eu peguei todos os espetos da churrasqueira do Tata e coloquei na nossa churrasqueira onde havia ainda um braseiro aceso. Feito o “roubo” fui saborear os últimos pedaços de carne do nosso churrasco esperando o que ia acontecer. Não demorou e ouvi alguém falar em voz alta reclamando porque tiraram o churrasco se nem assado estava. Em seguida, alguém gritava a plenos pulmões que o churrasco foi roubado e uma confusão se armou, uma parte dos vizinhos achava que o Tata estava brincando. Dona Loti, quase que num ataque de fúria dizia que o churrasco havia sido roubado. Estabelecida a confusão, foram para a frente de casa e casualmente uma pessoa passou correndo lá na esquina que fica nos fundos da Igreja N. S. da Saúde. Dona Maria já gritou para o seu Lauro para ele correr atrás daquele safado pois só podia ser ele o ladrão de churrasco. Além do Seu Lauro, todos vizinhos partiram em uma desabalada carreira para alcançar o sujeito. Me disseram que o sujeito quando viu aquele bando de esfomeados correndo aos gritos na direção dele, parece que ligou o modo turbo e virado em pernas sumiu em desabalada carreira pela Osvaldo Aranha. Ninguém sabia onde o sujeito se escondeu. Eu aproveitei a ausência, peguei todos espetos roubados e coloquei todos de volta na churrasqueira de tonel que essa altura estava com um braseiro dos bons e assando carne, linguiça e frango. Claro que o primeiro que chegou depois da correria e gritaria pela Arroio foi direto até a churrasqueira e aos berros prometia matar quem fez a devolução do churrasco. Uns acusavam aos outros de ser o autor da trapalhada que poderia terminar numa sessão de mãos nos beiços sem motivo. Eu, por questão de segurança a minha própria vida, nunca contei a verdade e se me perguntassem eu negaria tudo, afinal sou o marisqueiro Wilson Menezes de Freitas e se não fizesse o devido silêncio, certamente não iria me encontrar com os demais leitores do Marisco na sua próxima edição. Até lá


EDIÇÃO 246 JUNHO / 2021

LIQUINHO

Olá marisqueiros, vamos para mais um acontecimento histórico de Cidreira e sua gente. Cidreira já estava emancipada lá pelos anos 1990, mas ainda era dependente de Tramandaí ou de Osório. Aqui não havia agência bancária, delegacia de polícia, cartório nem a Prefeitura tinha prédio próprio e o atendimento a saúde dos cidreirenses era por parteiras, por algum médico veranista, ou pelo pessoal que trabalhava nas primeiras farmácias que por aqui se estabeleceram.
A segurança pública de Cidreira naqueles tempos era feita por dois brigadianos que para aqui trabalharem recebiam moradia gratuita.
Vou dar nome de Pedro e Paulo para os dois soldados pois a segurança realizada pela Brigada consistia em uma patrulha realizada sempre por uma dupla de brigadianos que na época eram conhecidos como Pedro e Paulo.
Os dois soldados logo ficaram conhecidos de todos cidreirenses, assim como eles por dever do ofício, conheciam praticamente todos os moradores. Utilizando um fusquinha, faziam a patrulha pelas ruas da cidade e atendiam as ocorrências quase sempre de alguma sessão de mão nos beiços nos botecos ou raramente atendiam alguma ocorrência de furto. Nesse quesito, havia um cidreirense que ficou muito conhecido dos brigadianos a ponto de quase haver uma amizade entre eles. Liquinho era o “amigo” dos soldados. Aparentemente um cidadão normal, mas Liquinho tinha o hábito de furtar somente botijões de gás. Havia muitas casas de veranistas, algumas só eram habitadas nos meses de janeiro ou fevereiro de cada ano. Durante os meses restantes do ano, as casas dos veranistas ficavam com a aparência de abandonadas. Isso facilitava muito o trabalho do Liquinho que escolhia aleatoriamente uma casa e de lá surrupiava somente o botijão de gás. Assim, quando algum prejudicado reclamava para os brigadianos que haviam sido vítimas de furto de um botijão de gás, os soldados faziam uma visita de cortesia ao Liquinho e o caso ficava resolvido de forma relâmpago. Houve um caso contado pelos próprios brigadianos que se tornou famoso.

 

 

Em uma noite com muita maresia os soldados retornavam do Pinhal, que na época era bairro de Cidreira, quando o policial que dirigia o fusca viu numa das transversais da Mostardeiros o deslocamento de uma pessoa suspeita que caminhava juntamente com um cusco em direção aos cômoros. O elemento parecia carregar um botijão de gás. Imediatamente o policial manobrou a viatura em direção ao sujeito que de imediato foi reconhecido pelo brigadiano como sendo o Liquinho. Este sentindo a aproximação do fusca, de imediato soltou o botijão e continuou caminhando como se nada tivesse acontecido e até fazia gestos como estivesse falando todo animado com o cusco companheiro. Os brigadianos pararam a viatura no lado do Liquinho que se fez de surpreso. Os brigadianos na aproximação desceram da viatura e deram boa noite para o Liquinho que logo respondeu sorridente com outro boa noite. O brigadiano então perguntou para Liquinho para onde ele ia e sobre o botijão que ficou alguns metros atrás. Liquinho então respirou fundo e disse:
- Meus amigos, eu nem sei como contar para vocês. Eu saí para procurar o Linguiça, meu cachorro, e o encontrei lá na beira da praia. Agora estou voltando para casa.
Os brigadianos entraram do papo do Liquinho e a ele perguntaram:
- E aquele botijão ali Liquinho? O que ele está fazendo a essa hora na rua?
A resposta foi pronta e esclarecedora.
- Meus amigos, hoje eu já tinha visto esse botijão a umas duas ou três quadras atrás e acreditem, depois que passei por ele com o Linguiça, ele resolveu vir rolando atrás de nós como vocês podem ver, e o pior, nem sei onde é que ele mora.
Os brigadianos fizeram o registro dessa ocorrência e ficaram imaginando como levar esse caso até a delegacia de Tramandaí que naquela época atendia a nossa região.
E até hoje quando ocorre o furto de um botijão de gás aqui em Cidreira, os moradores mais antigos sempre lembram que deve ter sido mais um ataque do Liquinho escoltado pelo fiel companheiro canino o Linguiça.
Eu conto e não invento o que já faz parte da história cidreirense. Na próxima edição do Marisco espero com mais um causo que tenha acontecido nessa bela região litorânea. Até lá.


Edição 245 de abril de 2021

A PEQUENA HISTÓRIA DO CID E DA JÚ

Olá marisqueiros, vamos para mais um acontecimento histórico de Cidreira e sua gente. Hoje vou contar sobre um fato ocorrido lá no século passado quando nossa Cidreira vivia seus primeiros anos de emancipação. Por aqui haviam poucos moradores fixos e talvez por essa razão todos se conheciam. Entre esses amigos, havia o Cid e a Ju, que eram um pouco mais velhos do que eu, e já eram casados. Foi por aquela época que o Presidente Ari Rios do Cidreira Praia Clube sugeriu ao casal fazer uma grande festa no CPC, para comemorar mais um aniversário de casamento. No dia seguinte, a festa e por muito tempo depois, a comemoração foi assunto comentado na cidade. A festa transcorreu durante a noite toda. Foi com o dia raiando que a Ju resolveu radicalizar, fazendo para o Cid uma exigência, um tanto comprometedora. Não é preciso dizer que os efeitos etílicos do casal e convidados era muito grande. Mas ninguém deixou de perceber quando a Ju em alto e bom som exigiu que o Cid deveria levá-la a uma daquelas boates. O fato é que o Cid algum tempo antes havia prometido a Ju e ninguém se importou com a exigência da Ju, pois isso pareceu ser algo de foro íntimo do casal. Tempos depois fiquei com aquela curiosidade de saber como ficou o assunto da Ju e da casa da luz vermelha. A oportunidade se deu quando em um domingo, o Cid e o Nei que era meu irmão mais velho se encontraram no CPC, e meu irmão o convidou para almoçar. Sempre aos domingos, meu pai colocava uma carne para assar e o Cid em retribuição ao convite trouxe um garrafão de Sangue de Boi. Umas caipirinhas finamente preparadas com aquela combinação de água que passarinho não bebe vinda de Santo Antônio, mais limão, açúcar e gelo, serviam como companhia aos aperitivos que precediam ao churras dominical. A oportunidade era propícia para matar minha curiosidade então perguntei ao Cid que história era aquela da Ju intimá-lo para ela ir a um puteiro. Cid riu muito e começou a narrativa do dia que resolveu cumprir a promessa feita para a Ju. Por pouco não perdeu para sempre a mulher naquele dia, pois de cara quando chegou na boate que existia aqui na região, o porteiro todo sorridente foi dizendo: “- Aí Cid, tudo tri?” A Ju já fez uma careta e aquele olhar fulminante que pedia uma explicação urgente. O Cid disse que o porteiro era o Pelanca, um parceiro dos jogos de bocha e que ele fazia um bico na boate para ajudar no orçamento doméstico. A Ju ficou calma, entrou na boate e até escolheu uma mesa para sentarem. Logo veio uma sorridente garçonete com um adereço de coelhinha na cabeça e uma cauda de coelho maior que o minúsculo biquini que vestia sob meias rendadas.

A garçonete olhando nos olhos do Cid foi rapidamente dizendo: “Cidinho que bom que você chegou! O que vão beber?” Cid pediu duas cervejas e a deslumbrante criatura num giro cheio de rebolado se afastou para atender o pedido feito. A Ju por pouco não pulou para cima da garçonete. Por sorte, ele foi logo dizendo para a Ju que a garçonete era mulher do Pelanca, o porteiro e que certamente estava também fazendo um bico no estabelecimento. A Ju não se convenceu e estava indo em direção da portaria para confirmar o fato. Nesse exato momento a música subiu de volume e as luzes se apagaram. Isso obrigou a Ju parar e voltar para a mesa. No palco uma estonteante criatura de curvas perfeitas, mas com um gogó que o entregava, surgiu sob um facho de luz e iniciou um strip. O volume da música baixou, a stripper fez o seu show sob gritos e aplausos. No final da apresentação as luzes acenderam e a luxuriante criatura se tapava com uma das mãos, e com a outra mão acenava com sua calcinha para público gritando: “-Cid querido! Onde tu estás? Essa é para ti meu lindo.” O Cid tirou a Ju da boate sob chutes, mordidas, unhadas e doloridas bofetadas. Na calçada conseguiu convencer a Ju a voltar para casa, pois ela queria separação. Como nada é tão ruim que não possa piorar, um taxi se aproximou do Cid e da Ju e o motorista foi logo dizendo: “-Qual é Cid? Essa piranha é das brabas? Suba aí que eu te levo para o Motel de sempre.” Cid finalizou contando que depois disso passou quase um ano dormindo com o cusco da casa no sofá que ficava numa área coberta nos fundos de casa.

Edição 244 de março de 2021

O ALAMBIQUE DO SEU JUCA

Lá pelo final dos anos 60, Cidreira ainda era apenas um distrito do município de Tramandaí. A RS 040 não era asfaltada e assim qualquer vivente vindo de Porto Alegre comia poeira desde Viamão até chegar aqui na praia. Havia muitos alambiques na beira da estrada e claro que cada um deles tinha algo a oferecer a mais que os outros, como modo de atrair a freguesia, que na maioria das vezes, eram aquelas pessoas que estavam em viagem para praia. Na altura do Rancho Velho tinha um alambique que era da preferência de meu pai. Estou falando do alambique do seu Juca, que era sempre muito cordial e tornou-se parada obrigatória. Lembro-me de um dia, na baixa temporada, o meu pai me convidou para vir até a praia para acertar uns concertos na nossa casa, a Vila Maricleia. Como sempre, paramos no alambique do seu Juca para comprar salame, queijo e pão caseiro, para consumir nos dias que ficávamos por aqui. É justo informar que naqueles tempos, em Cidreira, moravam poucas pessoas e o armazém Natal na esquina da Rua João Neves com a Getúlio Vargas era praticamente o único estabelecimento comercial de Cidreira. No armazém Natal podia-se comprar desde alfinete até hélice de avião, passando por panelas, pinicos, roupas, calçados, arroz, feijão, fumo em rolo, cano de fogão a lenha, bomba de água manual, fósforos, velas, lampiões, pás, martelos, parafusos enfim tudo que era usual naquele tempo. Mas o que nunca esqueci foi que nessa vinda, ao pararmos lá no seu Juca, o bolicho que ficava junto ao alambique estava movimentado, causo que era sexta feira, final de tarde e tive a impressão que todos viventes resolveram se reunir por lá. Estávamos aguardando o atendimento quando entrou um sujeito grande de altura e largura. Ele vestia uma bombacha surrada e uma camiseta sebosa pelo uso. Posicionou-se bem na ponta do balcão no mesmo instante que na outra ponta do balcão um baixinho com cara de fuinha fazia o mesmo. Parecia cena de filme de faroeste. Entre eles além de nós uma quantidade grande de pessoas também aguardavam seu atendimento. Foi quando o grandão deu um soco no balcão que causou quase um terremoto e disse com uma voz forte: “O Juca me serve uma cerveja senão!” O seu Juca fez uma cara que não gostou, mas parou tudo e serviu a cerveja para o sujeito como que dizendo “não quero me incomodar”. Não é que da outra ponta do balcão veio uma voz esganiçada pedindo uma cerveja também. Seu Juca continuou atendendo os demais quando estava quase chegando à vez de atender o baixinho de voz chata, outro soco estremecia tudo e o grandão disse: “Juca me dá mais uma cerveja senão!”

 

Lá foi seu Juca atender o grandão e voltou atendendo aquele mar de gente, da outra ponta o baixinho cara de fuinha pedia a sua cerveja. Eu e meu pai ficamos ali pacientemente aguardando atendimento e vimos o grandão dar uma dúzia de bordoadas no balcão e berrando por mais uma ceva senão! Também da outra ponta do balcão o baixinho irritava mais com sua voz fina de taquara rachada pedindo sua cerveja. O grandão tomou umas dez cervejas num gole só e deixando um dinheiro sobre o balcão deu as costas e foi embora. Seu Juca então começou a nos atender e comentou que o grandão sempre chegava e fazia a mesma coisa, mas pagava até a mais e nem esperava o troco. E para evitar confusão ele sempre atendia o sujeito. Nesse momento da outra ponta do balcão, aproveitando que o grandão foi embora, aquela vozinha irritante berra: “O Juca! Serve-me minha cerveja senão!” Seu Juca que nessa altura dos acontecimentos estava de saco mais do que cheio, foi até o baixinho e fuzilando o vivente com um olhar furioso e irritado disse: “Senão o que seu bosta!” O baixinho mais que humildemente baixou a crista e disse: “Senão eu peço um guaraná seu Juca.” Eu que naquela época já era mais criança não resisti à cena e sai de fininho segurando o riso até chegar ao nosso carro. Quando eu e meu pai pegamos novamente a estrada, por vezes nós tínhamos ataques de riso que duraram até chegarmos aqui em Cidreira e volta e meia vinha à lembrança do baixinho que se quebrou tentando bancar o valentão. Sou o marisqueiro Wilson Freitas e espero reencontrar todos na próxima edição.