Edição 245 de abril de 2021

A PEQUENA HISTÓRIA DO CID E DA JÚ

Olá marisqueiros, vamos para mais um acontecimento histórico de Cidreira e sua gente. Hoje vou contar sobre um fato ocorrido lá no século passado quando nossa Cidreira vivia seus primeiros anos de emancipação. Por aqui haviam poucos moradores fixos e talvez por essa razão todos se conheciam. Entre esses amigos, havia o Cid e a Ju, que eram um pouco mais velhos do que eu, e já eram casados. Foi por aquela época que o Presidente Ari Rios do Cidreira Praia Clube sugeriu ao casal fazer uma grande festa no CPC, para comemorar mais um aniversário de casamento. No dia seguinte, a festa e por muito tempo depois, a comemoração foi assunto comentado na cidade. A festa transcorreu durante a noite toda. Foi com o dia raiando que a Ju resolveu radicalizar, fazendo para o Cid uma exigência, um tanto comprometedora. Não é preciso dizer que os efeitos etílicos do casal e convidados era muito grande. Mas ninguém deixou de perceber quando a Ju em alto e bom som exigiu que o Cid deveria levá-la a uma daquelas boates. O fato é que o Cid algum tempo antes havia prometido a Ju e ninguém se importou com a exigência da Ju, pois isso pareceu ser algo de foro íntimo do casal. Tempos depois fiquei com aquela curiosidade de saber como ficou o assunto da Ju e da casa da luz vermelha. A oportunidade se deu quando em um domingo, o Cid e o Nei que era meu irmão mais velho se encontraram no CPC, e meu irmão o convidou para almoçar. Sempre aos domingos, meu pai colocava uma carne para assar e o Cid em retribuição ao convite trouxe um garrafão de Sangue de Boi. Umas caipirinhas finamente preparadas com aquela combinação de água que passarinho não bebe vinda de Santo Antônio, mais limão, açúcar e gelo, serviam como companhia aos aperitivos que precediam ao churras dominical. A oportunidade era propícia para matar minha curiosidade então perguntei ao Cid que história era aquela da Ju intimá-lo para ela ir a um puteiro. Cid riu muito e começou a narrativa do dia que resolveu cumprir a promessa feita para a Ju. Por pouco não perdeu para sempre a mulher naquele dia, pois de cara quando chegou na boate que existia aqui na região, o porteiro todo sorridente foi dizendo: “- Aí Cid, tudo tri?” A Ju já fez uma careta e aquele olhar fulminante que pedia uma explicação urgente. O Cid disse que o porteiro era o Pelanca, um parceiro dos jogos de bocha e que ele fazia um bico na boate para ajudar no orçamento doméstico. A Ju ficou calma, entrou na boate e até escolheu uma mesa para sentarem. Logo veio uma sorridente garçonete com um adereço de coelhinha na cabeça e uma cauda de coelho maior que o minúsculo biquini que vestia sob meias rendadas.

A garçonete olhando nos olhos do Cid foi rapidamente dizendo: “Cidinho que bom que você chegou! O que vão beber?” Cid pediu duas cervejas e a deslumbrante criatura num giro cheio de rebolado se afastou para atender o pedido feito. A Ju por pouco não pulou para cima da garçonete. Por sorte, ele foi logo dizendo para a Ju que a garçonete era mulher do Pelanca, o porteiro e que certamente estava também fazendo um bico no estabelecimento. A Ju não se convenceu e estava indo em direção da portaria para confirmar o fato. Nesse exato momento a música subiu de volume e as luzes se apagaram. Isso obrigou a Ju parar e voltar para a mesa. No palco uma estonteante criatura de curvas perfeitas, mas com um gogó que o entregava, surgiu sob um facho de luz e iniciou um strip. O volume da música baixou, a stripper fez o seu show sob gritos e aplausos. No final da apresentação as luzes acenderam e a luxuriante criatura se tapava com uma das mãos, e com a outra mão acenava com sua calcinha para público gritando: “-Cid querido! Onde tu estás? Essa é para ti meu lindo.” O Cid tirou a Ju da boate sob chutes, mordidas, unhadas e doloridas bofetadas. Na calçada conseguiu convencer a Ju a voltar para casa, pois ela queria separação. Como nada é tão ruim que não possa piorar, um taxi se aproximou do Cid e da Ju e o motorista foi logo dizendo: “-Qual é Cid? Essa piranha é das brabas? Suba aí que eu te levo para o Motel de sempre.” Cid finalizou contando que depois disso passou quase um ano dormindo com o cusco da casa no sofá que ficava numa área coberta nos fundos de casa.

Edição 244 de março de 2021

O ALAMBIQUE DO SEU JUCA

Lá pelo final dos anos 60, Cidreira ainda era apenas um distrito do município de Tramandaí. A RS 040 não era asfaltada e assim qualquer vivente vindo de Porto Alegre comia poeira desde Viamão até chegar aqui na praia. Havia muitos alambiques na beira da estrada e claro que cada um deles tinha algo a oferecer a mais que os outros, como modo de atrair a freguesia, que na maioria das vezes, eram aquelas pessoas que estavam em viagem para praia. Na altura do Rancho Velho tinha um alambique que era da preferência de meu pai. Estou falando do alambique do seu Juca, que era sempre muito cordial e tornou-se parada obrigatória. Lembro-me de um dia, na baixa temporada, o meu pai me convidou para vir até a praia para acertar uns concertos na nossa casa, a Vila Maricleia. Como sempre, paramos no alambique do seu Juca para comprar salame, queijo e pão caseiro, para consumir nos dias que ficávamos por aqui. É justo informar que naqueles tempos, em Cidreira, moravam poucas pessoas e o armazém Natal na esquina da Rua João Neves com a Getúlio Vargas era praticamente o único estabelecimento comercial de Cidreira. No armazém Natal podia-se comprar desde alfinete até hélice de avião, passando por panelas, pinicos, roupas, calçados, arroz, feijão, fumo em rolo, cano de fogão a lenha, bomba de água manual, fósforos, velas, lampiões, pás, martelos, parafusos enfim tudo que era usual naquele tempo. Mas o que nunca esqueci foi que nessa vinda, ao pararmos lá no seu Juca, o bolicho que ficava junto ao alambique estava movimentado, causo que era sexta feira, final de tarde e tive a impressão que todos viventes resolveram se reunir por lá. Estávamos aguardando o atendimento quando entrou um sujeito grande de altura e largura. Ele vestia uma bombacha surrada e uma camiseta sebosa pelo uso. Posicionou-se bem na ponta do balcão no mesmo instante que na outra ponta do balcão um baixinho com cara de fuinha fazia o mesmo. Parecia cena de filme de faroeste. Entre eles além de nós uma quantidade grande de pessoas também aguardavam seu atendimento. Foi quando o grandão deu um soco no balcão que causou quase um terremoto e disse com uma voz forte: “O Juca me serve uma cerveja senão!” O seu Juca fez uma cara que não gostou, mas parou tudo e serviu a cerveja para o sujeito como que dizendo “não quero me incomodar”. Não é que da outra ponta do balcão veio uma voz esganiçada pedindo uma cerveja também. Seu Juca continuou atendendo os demais quando estava quase chegando à vez de atender o baixinho de voz chata, outro soco estremecia tudo e o grandão disse: “Juca me dá mais uma cerveja senão!”

 

Lá foi seu Juca atender o grandão e voltou atendendo aquele mar de gente, da outra ponta o baixinho cara de fuinha pedia a sua cerveja. Eu e meu pai ficamos ali pacientemente aguardando atendimento e vimos o grandão dar uma dúzia de bordoadas no balcão e berrando por mais uma ceva senão! Também da outra ponta do balcão o baixinho irritava mais com sua voz fina de taquara rachada pedindo sua cerveja. O grandão tomou umas dez cervejas num gole só e deixando um dinheiro sobre o balcão deu as costas e foi embora. Seu Juca então começou a nos atender e comentou que o grandão sempre chegava e fazia a mesma coisa, mas pagava até a mais e nem esperava o troco. E para evitar confusão ele sempre atendia o sujeito. Nesse momento da outra ponta do balcão, aproveitando que o grandão foi embora, aquela vozinha irritante berra: “O Juca! Serve-me minha cerveja senão!” Seu Juca que nessa altura dos acontecimentos estava de saco mais do que cheio, foi até o baixinho e fuzilando o vivente com um olhar furioso e irritado disse: “Senão o que seu bosta!” O baixinho mais que humildemente baixou a crista e disse: “Senão eu peço um guaraná seu Juca.” Eu que naquela época já era mais criança não resisti à cena e sai de fininho segurando o riso até chegar ao nosso carro. Quando eu e meu pai pegamos novamente a estrada, por vezes nós tínhamos ataques de riso que duraram até chegarmos aqui em Cidreira e volta e meia vinha à lembrança do baixinho que se quebrou tentando bancar o valentão. Sou o marisqueiro Wilson Freitas e espero reencontrar todos na próxima edição.