MESTRE JULINHO - UMA LEVADA DIFERENTE
Desde os tempos de guri, pé na areia, quando corria nas dunas prá buscar o jornal que o teco teco jogava, ou quando ia na rodoviária pegava o carrinho de madeira e ia esperar o ônibus dos veranistas, prá carregar as malas e ganhar uns trocados e assim ajudar um pouco em casa. Desde aquele tempo podia se saber que aquele guri trazia uma levada diferente. Mas era quando pegava o violino feito pelo seu pai o Mestre Tobias que o guri encantava, tirava notas e combinava harmonias, tudo de um jeito ímpar, tudo do seu jeito próprio, tudo com uma levada diferente.Um jeito diferente de entender quem é da praia, quem pisa na areia, quem é do mar. Uma levada diferente. Uma batida única.

BATEU O TERRAL
Era certo! A pandorga preta no céu anunciava a presença do Mestre Julinho trilhando pela beira da praia, pescando de pandorga. Boa pescaria! Conversanso com o vento. Trocando uma idéia com as ondas. Um sujeito da praia construído de seus entendimentos musicais, Suas levadas diferentes, cheias de maresia e repuxo. De chapéu de palha, fazendo o baixo no Grupo de Cultura Popular Kikumbí, reveleva um modo diferente de identificar quem era da praia. Mais que música, um modo especial de lançar olhares carinhosos às comunidades praieiras. Um modo de se conhecer mais e melhor, e através da Música da Praia um jeito de crescer e evoluir em conjunto. Ficam os ensinamentos, o sorriso amigo o olhar verdadeiro...

MESTRE JULINHO DA PRAIA
Daí então me contaram que aqui na praia tinha um músico conhecido como Julinho, do “Pagode do Julinho”, que tocava no famoso Bar João. Então fui lá para conhecer o Julinho com a idéia de formar uma associação de músicos de Cidreira, para fortalecer as demandas da classe musical na cidade. Conversei por longo tempo com o Julinho que me apresentou seus músicos: Irani no baixo, seu irmão Totonho na bateria, Denilson Ferreira na percussão, Claudinho nos teclados e Jociel Lima no violão, esta era a formação do “Pagode do Julinho” na época. As conversas foram boas e em pouco tempo estávamos, em grupo, promovendo a “Sexta Nobre” no CPC, evento que ficou célebre pela participação de várias bandas de Cidreira e arredores, tudo isso com o apoio da Tia Sandra que servia os melhores pastéis da praia, acompanhados do sorriso mais bonito do mundo.
No final do evento, ficávamos nós: Ivan Therra, o Julinho, o Gito, filho da Tia Sandra e também músico, o Marcelo Melo, o Martielli Weiss, o Cris Peres, entre outros, enfim, os mais chatos e insistentes, na cozinha da Tia Sandra, conversando sobre a música, a praia, a cidade, sobre cada um de nós e sobre todos ao mesmo tempo. Naquelas noites, durante aquelas conversas estava se solidificando a idéia do coletivo de artistas praieiros que veio a formar a Casa da Cultura do Litoral que hoje é uma instituição premiada nacionalmente.
O GRUPO DE CULTURA POPULAR KIKUMBÍ
Naquelas noites começávamos, eu e o Julinho a conversar sobre as coisas da cultura do litoral. Eu, muito pela pesquisa da cultura litorânea que havia me dado a vitória na Tafona da Canção com a música “Coberta de Alma” em parceria com o Elton Saldanha e o Julinho falava de suas vivências pois nasceu na beira da praia e desde sempre viveu as culturas praieiras.
As vivências do Julinho que, de pequeno ia levado pela mão na festa dos Maçambiques, foi me instruindo e construindo uma percepção diferenciada sobre o que significa ser da beira da praia. Conversando comigo Julinho foi aos poucos abrindo as cortinas sobre as riquezas das culturas da região praieira e me fazendo conhecer mais sobre o assunto. Julinho sabia das cantorias, das danças, dos tambores, das batidas rituais, sabia de tudo. Sabia porque viveu tudo isso. Eu fiquei sabendo porque o Julinho contou. Depois, levado pelo Julinho, fui conhecer de perto o povo Maçambique, suas cores, alegrias, tambores e fé. Por toda a história, pela luta e pela resistência é que me tornei amigo e admirador dessa gente maçambiqueira.
Foi daí que inventei de criar o Grupo de Cultura Popular Kikumbí, um grupo musical dedicado exclusivamente aos ritmos e temas originais da nossa região praieira gaúcha e convidei o Julinho para tocar a ideia prá frente. Convidamos o Daniel Maíba, o Martielli Weiss, a Mileni Weiss, a Carla Zuchetto, o Zé Adams, o Eraldo Almeida e o Cris Peres e faltava um batera. Então o Julinho disse que havia conhecido um guri do Túnel Verde que tinha talento e prometia muito. É claro que confiei no julgamento do Julinho e disse prá ele convidar o tal guri. E foi assim que chegou no Kikumbí o Joel Carvalho que em pouco tempo se tornou o Badá do Túnel. O Grupo Kikumbí ganhou destaque no cenário musical estadual ao participar e ser premiado em vários festivais. Cada vez mais o povo foi entendendo o que era aquela levada diferente, o que era aquele jeito único, aquela batida sem igual. E o Julinho, por ter tido a generosidade de ensinar o que sabia para muita gente ganhou de todos o reconhecimento. E o título de “Mestre” uniu-se ao seu nome. Mestre Julinho.
Então aquele Julinho passou a ser conhecido no cenário musical do nosso estado como Mestre Julinho. E todos os sujeitos culturais do Rio Grande do Sul passaram a admirar aquela “levada diferente”, aquela batida única, aquele riso escondido e aquele jeito praieiro. Mestre Julinho foi corajoso, foi bondoso e sempre será meu irmão, meu grande amigo.
Valeu Mestre Julinho dos Kikumbís!
Ivan Therra
 

MESTRE JULINHO
Ivan Therra

Olha o Mestre Julinho
Olha o Mestre chegou
Olha o Mestre Julinho
Olha o Mestre tá aí
Se tu pede prá ele
Ele vai te ensinar
a dançar Maçambique
a dançar Kikumbí
Olha na beira da praia
Onde a onda vem brincar
Vem de lá Mestre Julinho
Com segredos prá contar
O tambor de couro santo
Ele ensina a tocar
O chá chá da massacaia
Ele ensina a tocar
O tim ti li lin dos guizos
Ele ensina a toca
E a levada diferente
Essa tem que conquistar
Olha na beira da praia
Olha com chapéu de palha
Vem de lá Mestre Julinho
Balançando as massacais
Olha na beira da praia
Onde a areia vem dançar
Chega bem devagarinho
Que é pro mar não se agrandar
Olha por cima das ondas
Não precisa ajoelhar
E pede “bença” Mestre Julinho
Que ele vai te abençoar

Mestre Julinho apresenta o Maleiro Antigo no Desfile Cívico de 2003

Cena externa do filme O Maestro da Areia. Mestre Julinho contracenando com um lobo marinho na beira da praia.


Cena interna do filme "O Maestro da Areia" Tia Vera e Nanhani Ferreira atuando e encantando o cinema da praia.
O MAESTRO DA AREIA - O FILME
Jamais poderíamos imaginar que um dia a nossa gente da cultura, cheia de idéias com gosto de maresia, estaria fazendo um filme de uma história original da nossa praia. A história é do Maestro da Areia, um personagem real da história de Cidreira. O roteiro e a direção é de Ivan Therra, o projeto foi contemplado no II Revelando os Brasis - IMA e financiado pelo Ministério da Cultura. Para fazer o papel principal foi convidado o Mestre Julinho que fez o papel do Seu Tobias, seu pai. Tia Vera Teixeira, esposa do Mestre Julinho, fez o papel da esposa do Seu Tobias, a mãe do Mestre Julinho. O filme que foi exibido em rede nacional pelo Canal Futura, para o Brasil inteiro ver, mostrou um personagem negro, de beira de praia, que sabia fazer instrumentos musicais, completamente diferente de tudo o que já havia sido produzido em termos de cinema gaúcho. Nascia um cinema diferente no Estado do RS, com gosto de maresia.

MESTRE JULINHO COMUNICANDO COM AS COMUNIDADES
Mestre Julinho por várias vezes concedeu entrevista aos meios de comunicação do estado e do país, para falar sobre as singularidades da cultura popular da região praieira gaúcha. Quando entrevistado para o Programa Tele Domingo da RBS TV, Mestre Julinho falou sobre os tambores praieiros e as batidas e levadas diferentes originais das comunidades que vivem na beira do mar dos gaúchos.MESTRE JULINHO E A COMUNIDADE
Mestre Julinho por várias vezes foi às escolas públicas para ter com a gurizada da praia e a cada uma criança que encontrava, parecia que estava encontrando a si mesmo, a cada ensinamento, a cada batida, Mestre Julinho também socializava o entendimento sobre o que é ser da praia. Como poderia ser bem melhor ser da praia se nos entendêssemos enquanto sujeitos de uma comunidade com riquezas e valores a serem descobertos, identificados, registrados, valorizados e divulgados. Mestre Julinho esteve com a rapaziada, ensinando toques de tambor e dando toques de vida. Sempre daquele jeito, humilde, calmo e paciente, Mestre Julinho foi conquistando o respeito e o carinho de todos que tiveram a oportunidade de ouvi-lo.

MESTRE JULINHO É MÚSICA NA ESCOLA
Durante a aplicação do Projeto Música na Escola, iniciativa do então diretor municipal de cultura, Jociel Lima, foi que os estudantes e toda a juventude de nossa cidade teve a oportunidade de ouvir e aprender com Mestre Julinho. O projeto propiciou à nossa gurizada o acesso aos ensinamentos de cultura popular, ritmos, temas e construção de instrumentos originais da nossa região praieira gaúcha. Mestre Julinho, com o seu encanto natural conquistou a gurizada da praia e conseguiu espraiar conceitos de pertencimento, de grupo, de riqueza cultural e de coisas que são de todos ao mesmo tempo. Mestre Julinho ensinou.
MESTRE JULINHO E A DIVERSIDADE CULTURAL
Não foi apenas com a Música da Praia e com a Cultura Praieira que o Mestre Julinho contribuiu para o desenvolvimento da cultura popular da nossa cidade. No Serra e Mar, conjunto criado pelo Professor Guido Weiss foram os pioneiros de Cidreira em festivais. O Pagode do Julinho, totalmente formado por músicos da praia fez muito sucesso e animou o veraneio de muita gente no famoso Bar João. Com a gurizada do Ká entre Nós fez a festa e arrebentou nos carnavais da praia. Com os amigos Batista, Solismar e Adroaldo faziam uma música das mais lindas e a gauchada dançava até o amanhecer no CTG Piazito. Mestre Julinho era de todas as tribos, de todas as cores, de todos os ritmos, Mestre Julinho era de todos.

       

Assim como acontece em todo o nosso Estado, aqui na beira da praia, as comunidades negras também não eram tratadas de modo igualitário. A Vila da Fumaça e a Vila da Viola, reduto de moradia das pessoas de raiz africana em nossa praia, era um lugar pobre de pessoas pobres, ali morava o Julinho quando guri. Passado o tempo trabalhou de pedreiro, de pintor, foi funcionário da obra na prefeitura, foi segurança e zelador da SAPC, onde morou e juntamente com a Tia Vera criou seus filhos, o Cristiano e a Cristiane.

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O Mestre Julinho teve pouco acesso aos estudos, mas sabia ler e escrever. Mestre Julinho era trabalhador braçal, uma pessoa humilde e como tal a sociedade o tratava, pela cor da pele, chamavam-no o ”nego Julinho”. Sempre foi discriminado social e economicamente e durante a Gestão Custódia, sofreu uma ação judicial da Prefeitura para sair do prédio da antiga SAPC, de modo covarde foi despejado ficando com a sua família e seus pertences na rua. então ser acolhido pelo seu irmão Totonho. Por seu esforço e com o apoio de amigos conseguiu erguer sua casa, onde foi morar com a família. Quando a sociedade cidreirense se deu conta, o “nego Julinho” já era reconhecido em todo o estado e no país como “Mestre Julinho”, por suas vivências e por seu conhecimento da cultura popular praieira. Mestre Julinho conquistou a sua dignidade e muitos dos que lhe tratavam com desdém, passaram a respeitá-lo e a sua família, pela sua arte e pela sua cultura. “Mestre Julinho” é o pioneiro do movimento negro praieiro, um exemplo para os que lutam e sofrem com os preconceitos e discriminações da sociedade.